Vamos ser sinceros: Organizar as finanças pessoais já é difícil para quem possui um salário fixo e recorrente. Porém, quando você é um freelancer, profissional liberal, autônomo, ou possui um cargo comissionado, o salário não existe. A sua renda mensal varia todos os meses, e organizar as finanças pessoais torna-se uma tarefa ainda mais difícil.

Ter uma remuneração variável é uma verdadeira armadilha. Como você muitas vezes não sabe nem quanto dinheiro terá no próximo mês, fica muito difícil fazer um planejamento financeiro pessoal a longo prazo. Os conselhos tradicionais de “manter um orçamento mensal”, “guarde X % do seu salário todos os meses”, não são suficientes para equilibrar a sua vida financeira.

Eu sei como é difícil, pois estou passando por isso neste exato momento. Até 2015 eu trabalhava com CLT, recebia o mesmo salário todos os meses, e sempre consegui controlar as minhas contas mensais. Porém, em julho de 2015 eu decidi mudar a minha vida: pedi demissão e comecei a trabalhar por conta própria através da internet.

Hoje o meu trabalho é manter este blog, dou palestras e também cursos sobre educação financeira. Eu adoro a vida que tenho hoje, pois tenho mais liberdade criativa e realmente sinto que estou contribuindo mais com a sociedade do que quando eu trabalhava em uma empresa.

Porém essa nova realidade trouxe um tipo de stress que eu nunca havia tido: o stress financeiro.

Eu me planejei financeiramente para largar o meu emprego, tenho a minha reserva financeira, porém tive problemas para administrar o meu orçamento mensal. Senti na pele a dificuldade que muitos médicos, jornalistas, freelancers, autônomos, corretores de imóveis e profissionais liberais em geral passam todos os meses.

Não é fácil manter as contas em dia e planejar o futuro se cada mês é uma surpresa, não é mesmo?

Apesar disso, eu consegui encontrar o meu caminho, e você pode fazer o mesmo. É perfeitamente possível adaptar todos os conceitos de educação financeira e planejamento financeiro pessoal para a realidade de um profissional liberal, autônomo ou freelancer.

O que você precisa ter em mente é que, se a sua renda não é constante, é preciso ser mais organizado financeiramente do que um profissional assalariado. E neste artigo, você irá entender como isso deve ser feito da maneira correta. Então, vamos lá!

Organize as finanças pessoais e empresariais separadamente

como organizar as finanças pessoais

Não importa se você é um empresário, comerciante, corretor de imóveis ou redator freelancer. O primeiro passo para não ficar no vermelho e conseguir organizar as finanças pessoais é separar as contas do seu negócio das suas finanças pessoais.

Entenda que o seu “negócio” não é necessariamente uma loja física ou consultório, e sim a sua profissão como um todo. Um freelancer não possui ponto comercial, mas a sua profissão possui custos próprios, seja com impostos, internet, livros e treinamentos. Um corretor de imóveis possui gastos com combustível, roupas, almoços com clientes, internet, entre outros. Então, não entenda a palavra “negócio” no seu sentido tradicional, e sim enxergue você e a sua profissão como uma empresa.

O ideal é possuir duas contas bancárias distintas – uma para você e uma para a sua empresa/profissão. Desta forma também será mais fácil separar o dinheiro que você irá gastar para manter ou investir no seu negócio daquele utilizado para pagar as contas da sua casa, além de facilitar a contabilidade e o pagamento dos impostos.

As suas contas serão, ao todo, separadas em quatro categorias:

Gastos Pessoais: são seus gastos mensais com aluguel, comida, alimentação, etc.

Gastos do Negócio/Profissão: custos que envolvem o seu negócio ou profissão, como combustível, aluguel, internet, compra de equipamentos, treinamentos e eventos.

Poupança Pessoal: trata-se do seu planejamento financeiro pessoal, os valores que você irá poupar para atingir seus objetivos de curto, médio e longo prazo, além da reserva de emergência.

Poupança do negócio/Profissão: trata-se do dinheiro que deve ser guardado para manter o seu fluxo de caixa em dia. O valor poupado irá depender do tipo de negócio ou profissão, além de cobrir também os impostos.

Esta separação é, na minha opinião, o ponto principal para você conseguir organizar as suas finanças pessoais corretamente.

Na prática, para realizar esta separação, se você possui CNPJ o ideal é abrir uma conta Jurídica em nome da sua empresa (inclusive para quem é MEI) e uma conta bancária de pessoa física. Esta divisão é benéfica, inclusive, para efeitos de contabilidade.

Se você não possui CNPJ, existem três opções:

  • Abrir uma conta digital e usá-la para o seu negócio/profissão. A conta digital é isenta de taxas, e desta forma não haverá custos adicionais para você.
  • Transferir todos os seus ganhos diretamente para a sua poupança e apenas retirar o valor correspondente ao seu planejamento financeiro pessoal. Esta opção é um pouco mais complicada porque não haverá uma separação clara entre o dinheiro pessoal e do seu negócio, mas serve como uma solução provisória.
  • Não abrir duas contas separadas, mas controlar rigidamente o orçamento pessoal e profissional através de planilhas, cadernos ou aplicativos. Essa é a solução que muitas pessoas adotam, porém é mais difícil de ser colocada em prática no dia-a-dia. É ideal para pessoas que já são organizadas.

 

Calcule a sua renda média mensal

controle financeiro pessoal

O segredo para conseguir manter um controle financeiro pessoal é baseado em uma ideia muito simples: pague um salário a si mesmo. Todos os meses, na mesma data, transfira uma porção do dinheiro do seu negócio para a sua conta pessoal (daí a importância de possuir contas separadas). É como se você fosse um empregado de si mesmo.

Para calcular o valor deste “salário”, você deverá levar em consideração as suas despesas anuais. Some os seus gastos fixos mensais, multiplique por 12, e acrescente os gastos anuais, como seguro do carro, IPVA e impostos. Depois, divida tudo por 12 novamente e você terá o valor correspondente ao salário mínimo que você precisa ganhar para sobreviver e pagar as suas contas sem contrair dívidas.

Esta estratégia funciona para quem quer saber quanto dinheiro precisa ganhar para pagar as suas contas mensais. Porém, se o seu negócio ainda não é estável e a variação nos ganhos é muito grande, é preciso realizar o processo de maneira inversa.

Some todos os seus ganhos no último ano, ou no mínimo nos últimos 6 meses. Subtraia deste valor os gastos com o negócio, incluindo os impostos pagos, retire 10% para ser poupado e o resultado da conta será o lucro do período.

Divida o lucro por 12 (ou 6, ou pelo período que você considerou ao somar os rendimentos) e este será o valor máximo do salário mensal que você poderá pagar a si mesmo.

Lembre-se que é importante deixar uma “folga” no orçamento para imprevistos ou para uma queda momentânea no faturamento do seu negócio. Sendo assim, calcule um salário mensal que seja menor do que o valor máximo encontrado no parágrafo anterior.

O valor ideal do salário varia de pessoa para pessoa. Com o cálculo da sua renda média anual, você conseguirá o valor máximo que pode ser pago. Por outro lado, também é necessário realizar um orçamento mensal e calcular quais são seus gastos básicos.

Se o valor do salário máximo possível é maior que os seus gastos, ótimo. Você pode definir o seu salário e deixar uma folga para construir o seu fundo de emergência mais rapidamente.

Porém, se o salário máximo é menor do que os seus gastos, há um sinal de alerta: significa que o seu negócio está ficando no vermelho mês após mês, e cedo ou tarde você irá se endividar. Portanto, a prioridade deve ser reduzir os seus gastos pessoais e trabalhar para aumentar a sua renda. Desta forma, você conseguirá organizar as finanças pessoais sem prejudicar o seu negócio.

 

Pague as despesas do seu negócio primeiro

planejamento financeiro pessoal

Quando você trabalha para si mesmo, não existe uma pessoa que irá retirar parte do seu salário para pagar os impostos, plano de saúde, cesta básica e outras despesas. Logo, antes de organizar as finanças pessoais e calcular qual será exatamente o seu salário, é preciso considerar estes gastos também:

Impostos: deixar de pagar os impostos do seu negócio trará sérios problemas com a justiça e com a sua contabilidade. Priorize o pagamento de quaisquer impostos e taxas envolvidas com o seu negócio/profissão, inclusive as despesas com os Conselhos Profissionais (CREA, CRECI, CRM, OAB, entre outros).

Custos de Manutenção do Negócio: pague todos os custos fixos do seu negócio, como aluguéis, internet, energia, funcionários, ferramentas, combustível e outras despesas essenciais para o seu trabalho.

Reserva para o Fluxo de Caixa: Separe pelo menos 10% do seu faturamento para ter um fluxo de caixa reserva para o seu negócio. Este dinheiro funcionará como uma reserva de emergência para cobrir possíveis atrasos nos pagamentos, quedas momentâneas no faturamento e para pagar o seu salário mensal nos meses de baixa.

Plano de Saúde: Considere o seu plano de saúde como uma despesa diretamente ligada ao seu negócio. Imagine que você é um funcionário de si mesmo, e um dos principais benefícios oferecidos ao contratar um funcionário é o plano de saúde corporativo. Considerando como o SUS funciona (ou deixa de funcionar) na maioria das cidades, ter um plano de saúde privado é uma prioridade para a maioria das pessoas.

Após o pagamento de todas estas despesas, você deverá retirar a quantidade calculada para o seu salário. Se no mês atual a sua renda não foi suficiente para cobrir as despesas e o salário, você deverá retirar o dinheiro do fundo reserva do seu negócio.

Nos meses em que a renda ultrapassar os custos, use o dinheiro adicional para cobrir as retiradas que foram feitas neste fundo. Desta forma, você conseguirá sempre manter um ganho mensal mesmo sendo um profissional autônomo ou freelancer.

É importante ressaltar que o valor do seu salário deve ser recalculado se houver mudanças bruscas no faturamento da sua empresa ou na renda do seu negócio. O ideal é recalcular estes valores a cada 6 meses ou após crises, entradas ou saídas de grandes projetos.

 

Defina um dia fixo para o pagamento

tenha um dia fixo para pagamento

Escolha uma data fixa para o pagamento do seu salário, de preferência após as datas de vencimento das despesas do seu negócio.

Ter um dia fixo para o pagamento irá ajudar a controlar os seus gastos e organizar as finanças pessoais. Além disso, a sensação de que existe um dia fixo para o dinheiro entrar ajuda a reduzir o stress financeiro decorrente de uma fonte de renda que varia todos os meses.

 

 

Controle os Recebimentos

controle financeiro pessoal

Existem muitos autônomos e freelancers que recebem o pagamento de clientes praticamente todos os dias, e muitas vezes em dinheiro vivo. Se este é o seu caso, o ideal é separar um dia da semana para depositar este dinheiro no banco diretamente na conta da empresa, e realizar saques e retiradas apenas nos dias de vencimento das contas e no dia escolhido para o pagamento do seu salário.

O maior erro da maioria dos autônomos é ficar com o dinheiro recebido em mãos e gastar com pequenas compras diárias. Esse tipo de atitude atrapalha a o controle financeiro pessoal e faz com que você perca completamente o controle das suas contas.

Não deixe isso acontecer. Por mais que o dinheiro em mãos traga a ilusão de que os negócios vão bem, gastar sem pensar poderá destruir a sua vida financeira e colocar o seu negócio em risco.

Outra coisa: Não gaste seu dinheiro com base em recebimentos futuros.

O pagamento pode atrasar. O projeto pode ser cancelado. Imprevistos irão surgir. Nunca, jamais, em hipótese alguma, gaste o dinheiro no presente pensando em recebimentos futuros. Receba primeiro, gaste depois.

Tenha reservas pessoais e para o seu negócio

como organizar as finanças pessoais com um controle financeiro

Para conseguir organizar as finanças pessoais e ter um salário fixo, é preciso calcular o valor do seu salário e retirá-lo da conta da empresa todos os meses na mesma data. Porém, para conseguir cobrir os meses em que a sua renda é menor, é preciso primeiro ter uma reserva financeira.

Logo, se você está começando hoje a organizar as finanças pessoais, o primeiro passo é montar uma reserva de emergência para o seu negócio.

Guarde este dinheiro e junte uma quantidade suficiente para conseguir pagar os custos fixos do negócio e o seu salário por alguns meses. Desta forma, você conseguirá superar crises e meses ruins sem entrar no vermelho ou atrapalhar o seu orçamento mensal pessoal.

Existem muitos métodos para criar esta reserva, e uma delas é o conceito Open Doors, que eu explico em uma palestra disponível para os alunos do Curso Aprenda a Investir. É uma palestra em que eu ensino o passo a passo para criar a reserva Open Doors e garantir o salário fixo mensal mesmo sendo um profissional liberal, autônomo ou freelancer.

Nesta palestra, eu explico com mais detalhes e de forma prática o que deve ser feito para organizar as finanças pessoais e do seu negócio ou profissão.

Algumas pessoas me perguntaram se seria possível ter acesso somente à palestra, porém como mencionei ela é um bônus para os alunos do curso. Entretanto, muita gente precisa deste conteúdo e não achei justo deixá-las de fora. Por este motivo, resolvi disponibilizá-la por um valor simbólico neste link: Clique Aqui para Acessar a Palestra.

Planejamento Financeiro PEssoal

Para conhecer o Curso Aprenda a Investir, acesse a página oficial.

 

Concluindo…

Além dos desafios inerentes da profissão, ser um profissional liberal, autônomo ou freelancer traz muitos desafios na hora de organizar as finanças pessoais. Sem ter um salário fixo, é difícil planejar o futuro. Especialmente para objetivos de longo prazo, como a aposentadoria.

Por este motivo, é essencial separar as contas pessoal e profissional e estabelecer um salário para si mesmo. Os empresários conhecem esta quantia como pró-labore.

Para que você consiga equilibrar suas contas apesar da renda ser variável, é preciso pensar em si mesmo como uma empresa e lidar com questões como custos fixos, fluxo de caixa, pró-labore e a reserva financeira da empresa.

O primeiro passo para conseguir manter o pagamento das suas contas e do seu salário em dia é criar uma reserva de fluxo de caixa. Enxugue suas contas, reduza os gastos, economize e deixe este dinheiro guardado em uma poupança.

A partir daí você conseguirá usar esta reserva para pagar o seu “salário’ nos meses com baixo faturamento, e usar o dinheiro excedente dos meses bons para reconstituir a reserva. O importante é mantê-la sempre ativa. Este será o seu colchão financeiro, a sua proteção para imprevistos e o passaporte para uma vida financeira mais tranquila e organizada. Só assim você conseguirá começar a organizar as finanças pessoais e transformar os seus recebimentos variáveis em um salário fixo e recorrente.

  • Anchieta

    Querida Hevlin, gostei do artigo e estou repassando para os meus filhos. Um é empregado, mas pode fazer freelance e a outra é autônoma. Tenho certeza que os teus artigos serão importantes para eles!!!

  • Hevlin Costa

    Olá Prof Anchieta, obrigada pelo feedback. Estes conceitos que apresentei no artigo são ideais para qualquer pessoa que receba rendimentos variáveis. Espero que seus filhos gostem do artigo também! Beijos

  • Josiane

    Muito interessante essa proposta de organização. Eu sou profissional liberal e minha maior dificuldade é ter controle sobre as minhas finanças. Perfeito esse post!